Com a
leveza de se inciar um texto assim, percebi que às vezes é bom estar
completo de nada. Lembrei-me da minha infância no interior, quando
deitava sobre a grama, debaixo de uma árvore, no outono, quando mal
se sentia o sol, e ficava ali, pensando em absolutamente nada. Via as
folhas balançarem, os pássaros pousando em alguns galhos, e sequer
passava pela minha cabeça como seria meu futuro, ou melhor, nem
queria saber se o teria, tamanho estado de nada que me completava.
Hoje em
dia são raros os momentos em que me pego com esse sentimento. Minha
cabeça anda sempre tão cheia de pensamentos. Pensamentos dos mais
variados, sobre o medo de perder minha família, sobre a distância
dela, sobre meu caminho profissional, meu relacionamento, sobre o que
fazer numa sexta à noite, sobre ter que acordar cedo todos os dias,
sobre o que realmente eu gosto de fazer. São infinitos pensamentos.
Muita
falta me faz ter esses momentos em minha vida, eles realmente foram
uma parte importante da minha infância. A última vez que me lembro
de ter revivido esse momento foi na véspera de meu aniversário de
vinte e oito anos, quando pude relaxar e ficar completo de nada sob
uma árvore, vendo as folhas balançarem sob o sol.
Mas esse
nada não se confunde com vazio, pois estar vazio implica ausência
de sentimentos, e no meu nada estou repleto dos melhores deles. É como acontece com a cor branca, que apesar de parecer a ausência de cores, na verdade, surge da comunhão de todas elas.
A.S.
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