quinta-feira, 16 de outubro de 2014

REPLETO DE NADA

Dificilmente me proponho a escrever sem estar inspirado, sem ter um assunto previamente estabelecido, mesmo que apenas em notas mentais. Hoje me propus a iniciar um texto sem ter nada em mente, sem ter nenhum tipo de emoção me aflorando, apenas para ver o que poderia sair desse "nada".
Com a leveza de se inciar um texto assim, percebi que às vezes é bom estar completo de nada. Lembrei-me da minha infância no interior, quando deitava sobre a grama, debaixo de uma árvore, no outono, quando mal se sentia o sol, e ficava ali, pensando em absolutamente nada. Via as folhas balançarem, os pássaros pousando em alguns galhos, e sequer passava pela minha cabeça como seria meu futuro, ou melhor, nem queria saber se o teria, tamanho estado de nada que me completava.
Hoje em dia são raros os momentos em que me pego com esse sentimento. Minha cabeça anda sempre tão cheia de pensamentos. Pensamentos dos mais variados, sobre o medo de perder minha família, sobre a distância dela, sobre meu caminho profissional, meu relacionamento, sobre o que fazer numa sexta à noite, sobre ter que acordar cedo todos os dias, sobre o que realmente eu gosto de fazer. São infinitos pensamentos.
Muita falta me faz ter esses momentos em minha vida, eles realmente foram uma parte importante da minha infância. A última vez que me lembro de ter revivido esse momento foi na véspera de meu aniversário de vinte e oito anos, quando pude relaxar e ficar completo de nada sob uma árvore, vendo as folhas balançarem sob o sol.
Mas esse nada não se confunde com vazio, pois estar vazio implica ausência de sentimentos, e no meu nada estou repleto dos melhores deles. É como acontece com a cor branca, que apesar de parecer a ausência de cores, na verdade, surge da comunhão de todas elas.
A.S.



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