quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Caixa de Memória



Acabei de ler um poema lindo, andei com ele acalentando minha alma pelas calçadas da minha cidade, como quem carrega um tesouro em segredo; fico imaginado se as pessoas que passam por mim também carregam seus tesouros – uma frase de alguém especial, aquele trecho de música que tocou enquanto me arrumava pra sair, o som e o gosto do beijo antes da despedida. Será por quanto tempo que elas conseguem manter essas boas lembranças na mente? Qual o momento em que elas se dissolverão como a ultima mordida no sorvete num dia quente de verão?

O que seria de nós sem as lembranças, as sensações que tecem o que somos?! Tenho um problema sério com minha memória, ela seleciona algumas coisas e outras simplesmente são apagadas. Do poema lindo que li, ainda carrego seus versos, mas não lembro o nome do autor; de alguns momentos de alegria partilhados com os amigos fica somente uma vaga lembrança de um dia feliz.

Dizem que ao envelhecer, tendemos a resgatar lembranças mais antigas; será que nosso cérebro sofre um rebombinamento e inicia um processo de retrocesso? Na velocidade que esqueço as coisas tenho medo de chegar ao ponto do zero, será que minha mente ficará como uma TV fora do ar?! Será que abraçarei a morte sem levar minhas melhores histórias?

Ficarei bem se me lembrar das minhas caminhadas diárias por minha cidade, de lembrar como as árvores ficam lindas ao receber os raios do sol da manhã...de como o rio se banha de prata ao sol do meio dia...de como é lindo o lusco-fusco tingindo de laranja as copas das árvores...e seu eu lembrar de um trecho de uma boa música e de um poema de amor, aí sim, entrarei feliz no paraíso.
 
Lila Mah

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

PALOMA



Às vezes lembranças de nossa infância surgem em nossa mente tão sem explicação como um raio que cai do céu. Por vezes, um pequeno gesto desencadeia uma rede de lembranças que nos levam direto a um túnel do tempo que desemboca há pelo menos vinte anos atrás.
Hoje, enquanto lia um livro, lembrei-me de minha cachorra Paloma - não me lembro de quem escolheu o nome, mas pelo mau gosto acredito que não tenha sido eu! Foi o primeiro animal de estimação de que me recordo, embora minha mãe diga que minha família já havia tido outros dois. Vivíamos no interior, então Paloma era criada no terreiro, livre. Paloma foi especial por que a amei de verdade.
Lembro que tinha por volta de sete anos, e que uma de minhas brincadeiras favoritas era estar junto de Paloma, tentar fazer com que ela buscasse um pedaço de madeira que eu arremessasse, ou mesmo convencê-la a se fingir de morta ou dar a patinha. Todas as tentativas foram em vão, Paloma nunca aprendeu nada. E eu nunca a amei menos por isso.
Lembro-me do dia em que cortaram seu rabo, um sofrimento para mim. Lembro de digladiar com um tio para que não o fizessem. Quando fizeram tamanha covardia, pois usaram apenas um machado e um golpe certeiro, Paloma ficou sumida por três dias! Foram três dias de preocupação. Paloma retornara magra, ferida, mas ainda assim me amando como se perdoasse quem havia feito aquilo com ela!
Paloma não podia ficar dentro de casa, minha mãe não permitia, então meu maior objetivo era fazer com que ela tivesse sua própria casa. Tentativas vans para uma criança de sete anos. Nenhuma casa parava em pé, nenhuma casa era capaz de protegê-la da chuva. Lembro-me perfeitamente quando um amigo da família, que morava em um espaço cedido pelo meu pai, construiu um lar para Paloma. Que felicidade o dia em que soube que ela não passaria mais frio e que estaria protegida da chuva.
Triste foi o dia em que tive que me despedir, Paloma havia sido envenenada - no interior era comum que cachorros que frequentassem terrenos vizinhos acabassem sendo envenenados, uma prática cruel, mas real. Alimentava Paloma na boca, com polenta e leite. Nada funcionou. Lembro perfeitamente de seu olhar de despedida, aceitando resignada o fim da sua breve vida. Um dia cheguei da escola, fui procurar por ela, eu ainda acreditava num sopro de vida que poderia reanimá-la, mas nada encontrei. Havia sido sacrificada. Chorei. Não tive a oportunidade de me despedir, não tive a oportunidade de agradecê-la, como eu achava que deveria ter feito. Mas hoje percebo que seria inútil dizer algo a ela, cachorros não fazem questões dessas convenções culturais criada pelo homem. O mais importante ela sempre soube, éramos amigos que se amavam sinceramente!
A.S.

ACASO



Algumas vezes na vida, um acontecimento banal faz você se dar conta de algo muito maior.
Explico.
Há algum tempo fui dar uma de salva-vidas, havia uma formiga minúscula que estava se afogando numa pocinha d’água e fui salva-la, mas, infelizmente, por conta do tamanho de minhas mãos ou a força empregada, ela acabou morrendo. Fiquei péssima. Mas isso serviu para uma reflexão muito maior em minha vida que independentemente da energia aplicada, do zelo em torno do que (quem) amamos, as circunstancias sempre podem sair diferente do que imaginamos.
Vivemos a ilusão de que temos total controle sobre a vida, a rotina nos dá certa sensação de conforto, como se nosso mundinho estivesse protegido. Mas toda ação, por menor que seja, promove mudanças – pequeninas ou grandiosas – que podem transformar num piscar de olhos a brisa num grande vendaval. Na teia de surpresas da vida, tudo ao nosso redor pode ser mudado. O cotidiano sofre alterações constantemente e não estamos no controle de nada! Você não pode manter a bolha de sabão flutuando para sempre, apesar de bela, ela é efêmera e dura somente o tempo de seu encantamento.

O acaso me colocou diante da formiga e sua tragédia, e na minha boa intenção desastrada, fiquei solidária da tragédia dela; foi só mais uma formiga, foi só um momento na imensidão das horas - por acaso, no acaso, no grande mistério do infinito, a vida nos apresenta a questão e a resposta do que somos nesta grande vastidão.  
Lila Mah

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

LIVROS, DO FIM AO PRINCÍPIO.


Quando eu era criança, esperava ansiosa meu pai ir à peixaria e trazer o peixe embrulhado no jornalo peixe era irrelevante, para mim, a riqueza estava no jornal e eu lia tudo que havia nele, geralmente eram os classificados, mas não importava, o mais interessante era poder ler algo novo; era sentir fazer parte do mundo. Aquelas paginas fedidas de peixe, eram meu portal, meu tapete mágico... por alguns momentos eu sentia a liberdade.
Quando fui para a escola, eu devorava os livros de português e história. Nunca pude entender que havia crianças que detestavam ler, e elas tinham mais oportunidades de ter um livro do que eu! Acredito que essa contestação foi a primeira sobre as diferenças de oportunidades.
Não sei por que essas lembranças vieram pousar sobre meus ombros hoje, talvez seja por conta dessas reflexões de final/inicio de ano...e, se for, desejo de bom neste novo ano que nasce, mais leitores, mais crianças famintas por livros, como eu fui, e que tenham muito mais oportunidades de leitura, e, que você, leve seu coração para passear entre as frases de um livro; procure uma livraria, uma biblioteca, folheie aquele livro que seu amigo tem em casa e deixe sua alma ser seduzida pela ideia de alguém, que mesmo momentaneamente, deixe o outro falar em você.
Lila Mah.