Às vezes lembranças de nossa infância surgem em nossa mente tão sem
explicação como um raio que cai do céu. Por vezes, um pequeno gesto desencadeia
uma rede de lembranças que nos levam direto a um túnel do tempo que desemboca
há pelo menos vinte anos atrás.
Hoje, enquanto lia um livro, lembrei-me de minha cachorra Paloma - não
me lembro de quem escolheu o nome, mas pelo mau gosto acredito que não tenha
sido eu! Foi o primeiro animal de estimação de que me recordo, embora minha mãe
diga que minha família já havia tido outros dois. Vivíamos no interior, então
Paloma era criada no terreiro, livre. Paloma foi especial por que a amei de
verdade.
Lembro que tinha por volta de sete anos, e que uma de minhas
brincadeiras favoritas era estar junto de Paloma, tentar fazer com que ela
buscasse um pedaço de madeira que eu arremessasse, ou mesmo convencê-la a se
fingir de morta ou dar a patinha. Todas as tentativas foram em vão, Paloma
nunca aprendeu nada. E eu nunca a amei menos por isso.
Lembro-me do dia em que cortaram seu rabo, um sofrimento para mim.
Lembro de digladiar com um tio para que não o fizessem. Quando fizeram tamanha
covardia, pois usaram apenas um machado e um golpe certeiro, Paloma ficou
sumida por três dias! Foram três dias de preocupação. Paloma retornara magra, ferida,
mas ainda assim me amando como se perdoasse quem havia feito aquilo com ela!
Paloma não podia ficar dentro de casa, minha mãe não permitia, então meu
maior objetivo era fazer com que ela tivesse sua própria casa. Tentativas vans
para uma criança de sete anos. Nenhuma casa parava em pé, nenhuma casa era
capaz de protegê-la da chuva. Lembro-me perfeitamente quando um amigo da
família, que morava em um espaço cedido pelo meu pai, construiu um lar para
Paloma. Que felicidade o dia em que soube que ela não passaria mais frio e que
estaria protegida da chuva.
Triste foi o dia em que tive que me despedir, Paloma havia sido
envenenada - no interior era comum que cachorros que frequentassem terrenos
vizinhos acabassem sendo envenenados, uma prática cruel, mas real. Alimentava Paloma na
boca, com polenta e leite. Nada funcionou. Lembro perfeitamente de seu olhar de
despedida, aceitando resignada o fim da sua breve vida. Um dia cheguei da
escola, fui procurar por ela, eu ainda acreditava num sopro de vida que poderia
reanimá-la, mas nada encontrei. Havia sido sacrificada. Chorei. Não tive a
oportunidade de me despedir, não tive a oportunidade de agradecê-la, como eu
achava que deveria ter feito. Mas hoje percebo que seria inútil dizer algo a
ela, cachorros não fazem questões dessas convenções culturais criada pelo
homem. O mais importante ela sempre soube, éramos amigos que se amavam
sinceramente!
A.S.