quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O MONSTRO QUE MORA AQUI

Quando eramos crianças e morríamos de medo de lugares escuros; quem nunca achou que havia um monstro escondido debaixo da cama, dentro do armário ou atrás da porta?
Quem poderia explicar um medo assim, de algo que não se vê, de que não se tem a menor ideia de como seja?
Crescemos, e, num belo dia, nos deparamos com “aquele” monstro. Sim. Aquele monstro sem face, sem forma. Mas com a presença. A promessa. O Medo. E onde jamais poderíamos crer que o encontraríamos, ele aparece, dentro de nós mesmo.
Sim, dentro de mim. De você. Naquele simpático senhor que nos dá bom dia; naquela senhora carinhosa com seus netinhos, naquele distinto senhor de terno e gravata, no jovem que anda despreocupadamente, no carinha do bar, na menina da escola. Sim. Carregamos potencialmente um monstro oculto e ele sai da escuridão cada vez que uma voz se eleva, cada vez que permitimos a raiva dominar nossos atos.
A nós cabe não apenas manter a porta bem trancada, mas também não alimentá-lo, pois, se lhe damos o que comer, ele cria forças e despedaça as correntes que entrelaçavam a porta, fugindo, sem rumo, sem direção; e o que esperar de um monstro que ultrapassa as cercas de seu calabouço?

Lila Mah.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A OUTRA METADE

Como é difícil, para alguns, se apaixonar. Digo para alguns porque para outros as paixões acontecem de forma tão certa quanto o pôr-do-sol. Para essas pessoas paixões vêm e vão, e a cura de uma é o surgimento de outra.
Mas para outras pessoas tudo acontece de forma mais lenta, por vezes beirando a descrença de que este sentimento realmente exista, ou de que volte a deixá-la caminhando pelas nuvens, como faz a paixão. Deseja-se muito que ela ressurja, mas nada acontece. Por que nem todos tem a sorte de se apaixonar?
Essa pergunta me faz pensar se neste mundo superpovoado existe mesmo a cara metade de cada um. Por que algumas pessoas terminam seus dias sozinhas? Qual foi o momento em que ela desistiu de procurar? Seria isso uma opção, algumas pessoas realmente optaram por passar seus dias sem ninguém que as acompanhe?
Ainda vivo em um mundo no qual acredito que estar sozinho não é opção, e a questão maior não seria estar mal acompanhado, mas sim que cada um de nós realmente é um mundo. Um mundo de ideias, de pensamentos, de surpresas, de desilusões, de felicidade e de sofrimento. E nem sempre permitimos que esse mundo seja povoado, assim ele vive solitário, segue sua rotina de girar em torno do sol, como se não fizesse falta a ausência de vida nele.
A.S.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

FEEDBACK


Somos a sociedade do feedback. Todos querem dar respostas a tudo. A cada passeio nas redes sociais, a cada site de notícias, na TV, no rádio... estamos todos opinando. Seria isso bom? Seria.
Seria bom se a grande parcela filtrasse seus pensamentos antes, se pesassem na balança do bom senso a gravidade de suas opiniões. O mais assombroso é que não basta tecer uma opinião - querem impor suas verdades e sobre julgar a dos outros - se não lhes convém um comentário, uma ideia, atacam. Rosnam. Debocham. Eu vejo uma proliferação de ditadores cibernéticos a cada vez que entro nas redes sociais. E isso é assombroso.
Será que, por estarmos há tão pouco tempo nesta interatividade, ocorre este comportamento de criança birrenta? Ou será que esse fenômeno está servindo para refletir a verdadeira face da humanidade, que do alto de suas montanhas de erros, ousa apontar e julgar os defeitos dos outros, jogando pra debaixo do tapete sua hipocrisia diária?
Lila Mah

SAUDADE


um tempo que não corre nas engrenagens dos relógios, ele reflete sua face na poeira suspensa das salas esquecidas, viaja no tricotar ensandecido das aranhas, nos olha por entre janelas ocas das casas abandonadas. Balança entre as folhas das árvores nas ventanias de verão. Dança no lusco-fusco. Ele nos chama nas lembranças adormecidas, na pontada da saudade nascida nos dias frios do coração. O tempo além do tempo. O senhor da terra da lembrança. Quando toca seu cajado no chão, não porta que o detenha.
Quando menina eu o via nos olhos dos adultos. Ele cantava sua canção através das palavras dele. Crescia a cada suspiro saudoso, a cada história de seus passados. Eu era imune a suas investidas, mas ele pacientemente esperava a vida tecer minha história também. Não havia como escapar de seu abraço. A cada ano, sua sombra projetava-se mais ao meu lado.
O tempo paralelo. O condutor da carruagem. Não sei ao certo suas cores - num dia pode ser de um amarelo desbotado, pular para um cinza apagado ou inundar-se de cores fortes. Pinceladas de vermelho ocre – vai depender da pagina que ele vai abrir, qual envelope de história vai rasgar e recitar em meu coração, qual será a medida da saudade que despejará em mim.
um tempo que não corre nas engrenagens dos relógios, e ele ressurge a cada novo fôlego que nasce na terra e a cada brilho que se apaga no olhar de quem amamos.

Lila Mah

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

GAVETAS


Como é bom ter uma gaveta. Seja para guardar aquela roupa de frio que você não usa mais ou aqueles papéis que você não sabe em que local colocar, seja para preservar um par de sapatos que você não usa nunca, mas ainda assim não consegue se desfazer deles. Mas ando pensando que melhor do que termos gavetas em um armário seria termos nossas próprias gavetas. Explico melhor.
Como queria ter a capacidade de pegar a tristeza que me causou uma frase dita e colocá-la em uma gaveta bem pequena e apertada, na qual ela nunca teria espaço para crescer. Seria rejuvenescedor guardar algumas mágoas em uma gaveta de um algum armário inutilizado, onde sequer se passe em frente. Tudo estaria resolvido.
Melhor ainda seria ter em uma parte do criado-mudo uma gaveta para se guardar muita paz de espírito, para aqueles momentos mais difíceis. Muita alegria eu gostaria de ter em estoque, espalhada por várias gavetas ao redor da casa. Por que não uma gaveta com muita paciência, para um dia de muito estresse. Mas se fosse para escolher uma gaveta, eu com certeza teria uma com muito amor, para poder propagá-lo pelo mundo.
No entanto, ainda não achei um jeito de colocar meus sentimentos em compartimentos, então eles se espalham por aí. E nessa de deixá-los livres, por vezes magoam, porque sei que erro, mas em outros com certeza alegram, levam esperaça e confortam, porque a maior parte de mim ainda acredita que quem espalha o bem, o recebe de volta.
A.S.


PENSO. LOGO CAMINHO.

Caminhar. Andar. Seguir em frente. Olhar para frente. Um passo. Dois. Três. Milhares de passadas firmes. Deixando para trás tudo que angustia, a cada passada, um ser novo. Purificado.
Não existe, para mim, terapia melhor que caminhar. Vêem-me as melhores ideias, clareia meu raciocínio; é como se abrissem as portas da percepção. Tudo flui melhor. É tudo mais intenso. Muitos caminham para perder peso, queimar calorias; eu uso para queimar pensamentos - Talvez seja um contrapeso para minha natureza contemplativa, uma forma de processar as informações recebidas – o que eu capto na inércia, processo e queimo em minhas caminhadas.
Além do mais, está em nossa memória milhares de anos de marcha de nossos antepassados nômades. Caminhar é, portanto, um traço de nossa natureza.
Talvez o segredo da iluminação esteja no percorrer do caminho e não no final dele. Mas isso é pauta para uma nova andada...
Lila Mah.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

DE MÃOS DADAS

Em certo momento da vida todos se acalmam? O conquistador inveterado vai encontrar sua cara metade e dedicar a ela, só a ela, seu inteiro amor? O festeiro de plantão vai curtir a companhia de outro alguém em um sábado à noite, vendo um filme na televisão? O viciado em paixões se contentará com um amor tranquilo? Estamos mesmo predestinados a este fim?
O ser humano é assim, precisa do outro para se sentir completo, mas é claro que esta regra possui exceção. Mas não é sobre esta exceção que quero discorrer. Quero mesmo é ressaltar o quanto é profundamente importante o momento em que passamos do estágio de procura, quando amadurecemos e deixamos de lado alguns de nossos predicados para podermos seguir em frente. É como retirar os sacos de areia que seguram um balão para que ele possa voar mais alto.
Eu acredito nisso. Acredito que a maioria de nós não procura alguém para dar as mãos e atravessar a rua, mas sim alguém para dar as mãos e seguir pela rua, se equilibrando no paralelepípedo, ora segurando para não cair, ora ajudando o outro a se manter ali, como se ainda fossemos criança.  
A.S.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A PALAVRA É PRATA, O SILÊNCIO É OURO.

A gente vai crescendo e vai aprendendo, no verniz da vida, que nem tudo pode ser dito, que é sempre bom guardar certas opiniões lá no fundo da alma. Isso faz bem para a boa convivência e pra saúde.
Pois bem. Seria bom, muito bom se realmente fosse assim. Se pudéssemos segurar aquela história, aquele comentário dentro da boca. Mas não, tem que coçar a língua, e, assim, abre-se a boca e, segure as consequências! 
O pior de tudo é ouvir um comentário, uma história sobre os amigos - Instala-se aí um verdadeiro caos ético – você conta ou não conta? Em que isso vai afetar a vida do outro? Vale mesmo à pena contar? O que mesmo você tem com isso? - Então você decide não contar. Mas a danada da história fica lá no cantinho da mente. Ronronando pra você. Rindo da sua paz, debochando descaradamente da sua boa intenção. Até que um dia, num momentâneo vacilo, ela pula da sua boca e você se vê jogando a conversa toda no colo do outro. Você o narrador da história toda e seus personagens. Por mais que tenha a absoluta certeza de que seu ato foi por amizade e até inocente, você se corrói por dentro. Você o fogo da fogueira. Você a lenha estalando. Você o mensageiro da discórdia.
Portanto, quando aquela história alheia ficar martelando em sua cabeça, queimando em sua boca, lembre-se daquele provérbio chinês “A palavra é prata, o silêncio é ouro” e talvez, seja muito mais seguro, deixá-la dentro da segurança de seu cofre.
Lila Mah.

CORES

Deito na cama desarrumada do dia anterior. Viro-me. Olho para o relógio. Ajeito o travesseiro. Mudo o lado da cama. Não consigo dormir. Ligo a televisão. Nada que preste. Desligo a televisão. Viro-me novamente. O sono não vem. Ligo o computador. Penso no que escrever. Nenhum assunto me vem à mente. Digito uma frase. Apago.
Como é difícil a vida de um pretenso escritor, visto que precisa de suas vivências para poder dar cor ao texto. Como escrever usando os mais variados tons de cores que podemos encontrar na natureza se o que te rodeia é um tom de azul marinho esfumaçado que mais parece um preto desbotado.
Bons dias são aqueles em que o rosa púrpuro cai em forma de serpentina, em que os confetes voam ao vento formando cores verdes, azuis e violetas. Como é prazeroso ver o texto fluindo em tons de amarelo fumegante, se espalhando como brasas alaranjadas.  São empolgantes os dias coloridos, quando as palavras descem em forma de cachoeiras, formando lagos de ideias azuladas.
Nós refletimos nossas cores, mas elas nem sempre são belas, por vezes são azuis, outras carmins. Por vezes são superficiais como a aquarela, em outras parecem ter sido feitas a óleo.  Torço para que dias de ventos cintilantes, com raios de sol dourados retornem à minha paisagem, espero por tempos de plena harmonia de cores e tons. Não pertenço a este mundo esfumaçado, dominado por cores apagadas.
A.S

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O VASO, A PLANTA E A VIDA.

Por muito tempo cuidei de uma plantinha sequinha num vaso, na realidade só havia mesmo uma casquinha ressequida fincada na terra, a vida já havia partido há muito daqueles galhinhos; mas eu tinha obrigação de molhar aquele vaso, cuidar dele mantinha a esperança de um renascimento que, infelizmente, nunca veio. Por fim, ganhei uma nova muda de planta e ocupei o vasinho novamente, revivendo o ciclo da existência.
À noite, quando o relógio já não comanda meus passos, volto a pensar naqueles momentos que passei regando e conversando com aquela planta morta, um ato de teimosia amorosa pela vida. E não somos todos assim, não vivemos cuidando de nossos vasinhos onde plantamos sonhos, esperanças e muitas vezes, teimamos com alguns, na expectativa de que renasça, que floresça, que não morra?!
Acredito que a grande lição disso tudo é saber a hora de parar, de direcionar nossos esforços em algo novo. É retirar o que não vive mais e fazer um novo plantio, dar lugar no vaso a uma nova semente de esperança.
Lila Mah.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

MELANCOLIA

Às vezes um anjo triste chega perto de mim, segura minha mão e passeia comigo por algumas horas...não sei ao certo por que ele vem, quando chega, ou o convite que o faz pousar...só sei que quando está comigo, as flores perdem o viço, as cores ficam embotadas e turva-me a visão.
Mas ele não se demora ao meu lado, sou uma distração talvez, ou sou para ele como uma flor que a abelha passa apressada retira o pólen e segue... o que  faz da minha alegria não sei.
Houve uma ocasião em que ele se demorou mais, não me recordo se foi sua primeira visita, só sei que foi a mais longa onde o inverno se fez mais severo em meu coração, dias cinzas em que a vontade era fechar os olhos e dormir eternamente. Mas, assim como veio, ele se foi, asas furiosas ao vento, rasgando a cortina, deixando a luz entrar novamente. Meu coração floresceu, mas ficou nele a marca do anjo triste. E há dias em que ele volta, projeta sua sombra cinza, desacelera meu tempo e caminha comigo...
Lila Mah

ENTRELINHAS

Desde que comecei a ler tenho um problema sério com as fábulas - por que sempre a bruxa tem que ser feia? Por que as bruxas são sempre seres do mal? - Incrível como somos levados a julgar os outros pela aparência desde a infância. 
Na idade média, nos anos negros, num mundo cercado por pobreza e parcos recursos, as pobres mulheres que tinham conhecimento das ervas e que tentavam ajudar os outros, foram perseguidas e mortas cruelmente por pessoas que se diziam boas e piedosas – e a história nos mostra hoje onde o diabo realmente estava... 
Até mesmo nos filmes podemos observar que os malvados são sempre retratados como os marginalizados da época – foram motoqueiros e hippies nos anos 60/70, metaleiros e punks nos anos 80/90 e por aí vai... os que “mandam” na verdade, sempre irão manipular a opinião das massas para suas conveniências. 
Para julgar o outro é necessário conhecê-lo; analisar suas atitudes além de sua aparência, pois até mesmo a bíblia nos alerta sobre o lobo na pele do cordeiro...  
Lila Mah