Durante muito tempo
fitei na minha estante um caderno que havia ganhado de um amigo.
Pretendia nele escrever sobre a minha vida, fatos cotidianos ou
eventos que me marcassem, de forma positiva ou negativa. No entanto,
nunca tive coragem de me levantar da cama, pegar uma caneta, e
começar a escrever nesse caderno.
Por um tempo não quis
analisar o porquê de me negar a escrever minha história, algo que
objetivamente seria muito fácil de se fazer. Mas hoje, quase dois
anos depois de ter sido presenteado com aquele caderno – como o
tempo passa, mal acredito que todo esse tempo se arrastou e eu nada
fiz em relação a isso -, num rompante, sem saber o
que escreveria ou sem pensar nas dificuldades que tinha de me
aproximar deste caderno, catei-o no canto esquecido da estante e
decidi abri-lo.
Bom, o que escrever
agora, me perguntei. E como primeiro pensamento me veio à mente: por
que exitei, por tanto tempo, fazer algo tão simples? Escrever!
Agora, enquanto escrevo
neste caderno, percebo que o que eu não queria era, quando as rugas
já tomassem conta do meu rosto, voltar no tempo e me lembrar de
todas as histórias que me fizeram sofrer, com certeza meu caderno
estaria cheio delas, até porque não somos seletivos quando
precisamos escrever sobre uma dor. A dor nos inspira mais do que a
alegria, e este meu lado humano não precisaria ser relembrado.
Decidi então que seria
melhor escrever crônicas. Crônicas sobre pessoas desconhecidas.
Elas seriam eu, mas que por tomarem feições e roupagens diferentes,
no futuro não me remeteriam a mim, mas eu saberia, lá no fundo, que
o sentimento daquele texto partiu de mim, de um momento que eu vivi,
que eu senti. Esse sou eu, sempre preferindo deixar meus sentimentos
subentendidos. Será isso uma defesa por causa do medo de sofrer com feridas que ainda não foram cicratizadas? Não sei... Mas talvez isso seja
assunto para outra crônica, na qual não serei eu o personagem principal.
A.S.
Nenhum comentário:
Postar um comentário