quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

NUA E CRUA


Sou egoísta. Totalmente, plenamente egoísta. Quando eu não jogo lixo na rua, não faço por amor ao meio ambiente, nada disso - faço por que não quero ter que enfrentar um temporal na rua com bueiros entupidos de lixo. Não quero correr o risco de envenenar a água, de ficar sem água! Quando eu luto para preservar o meio ambiente, podem saber que estou pensando primeiramente na minha salvação.Quando devolvo algo que encontro perdido a outra pessoa, não faço por altruísmo. Não mesmo. Faço por que estou pensando em mim, por que quero ter algo meu devolvido também, se acaso perder.
 Se alguém erra o troco e me devolve à maior, eu alerto na hora e desfaço o erro. Por quê? Por que sou boa, honesta? Não. Faço simplesmente, por puro egoísmo de não ser tapeada e receber troco a menor.
Quando cumprimento as pessoas faço por egoísmo descabido. Sim! Se te dou bom dia, boa tarde, boa noite, se te pergunto como vai é por que simplesmente quero receber essa atenção de volta.
Se reclamo do governo, se luto por democracia, por justiça social...faço tão somente por egoísmo, por que quero um pais justo, livre, igualitário para que eu possa viver livre e bem nele.
Se te dou amor, é por egoísmo que faço. Estou pensando em mim, pois quero ser amada de volta. A velha história do “não faça ao outro o que não querem que faça a ti”.
Se creio em algo maior. Por que o faço? Atire a primeira pedra quem não faz tão somente para salvar a própria alma...
Surpresos? Arranharam o rótulo de boas almas que vocês colaram em suas carcaças? Estão aí com a questão em suas mãos como um joguinho de encaixe que não combina; a verdade esparramada nua e crua em suas salas de perfeição? E não somos todos egoístas? Não é assim que funciona? E este egoísmo não é bom, saudável e produtivo? Sejamos egoístas. 

Lila Mah.




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Caixa de Memória



Acabei de ler um poema lindo, andei com ele acalentando minha alma pelas calçadas da minha cidade, como quem carrega um tesouro em segredo; fico imaginado se as pessoas que passam por mim também carregam seus tesouros – uma frase de alguém especial, aquele trecho de música que tocou enquanto me arrumava pra sair, o som e o gosto do beijo antes da despedida. Será por quanto tempo que elas conseguem manter essas boas lembranças na mente? Qual o momento em que elas se dissolverão como a ultima mordida no sorvete num dia quente de verão?

O que seria de nós sem as lembranças, as sensações que tecem o que somos?! Tenho um problema sério com minha memória, ela seleciona algumas coisas e outras simplesmente são apagadas. Do poema lindo que li, ainda carrego seus versos, mas não lembro o nome do autor; de alguns momentos de alegria partilhados com os amigos fica somente uma vaga lembrança de um dia feliz.

Dizem que ao envelhecer, tendemos a resgatar lembranças mais antigas; será que nosso cérebro sofre um rebombinamento e inicia um processo de retrocesso? Na velocidade que esqueço as coisas tenho medo de chegar ao ponto do zero, será que minha mente ficará como uma TV fora do ar?! Será que abraçarei a morte sem levar minhas melhores histórias?

Ficarei bem se me lembrar das minhas caminhadas diárias por minha cidade, de lembrar como as árvores ficam lindas ao receber os raios do sol da manhã...de como o rio se banha de prata ao sol do meio dia...de como é lindo o lusco-fusco tingindo de laranja as copas das árvores...e seu eu lembrar de um trecho de uma boa música e de um poema de amor, aí sim, entrarei feliz no paraíso.
 
Lila Mah

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

PALOMA



Às vezes lembranças de nossa infância surgem em nossa mente tão sem explicação como um raio que cai do céu. Por vezes, um pequeno gesto desencadeia uma rede de lembranças que nos levam direto a um túnel do tempo que desemboca há pelo menos vinte anos atrás.
Hoje, enquanto lia um livro, lembrei-me de minha cachorra Paloma - não me lembro de quem escolheu o nome, mas pelo mau gosto acredito que não tenha sido eu! Foi o primeiro animal de estimação de que me recordo, embora minha mãe diga que minha família já havia tido outros dois. Vivíamos no interior, então Paloma era criada no terreiro, livre. Paloma foi especial por que a amei de verdade.
Lembro que tinha por volta de sete anos, e que uma de minhas brincadeiras favoritas era estar junto de Paloma, tentar fazer com que ela buscasse um pedaço de madeira que eu arremessasse, ou mesmo convencê-la a se fingir de morta ou dar a patinha. Todas as tentativas foram em vão, Paloma nunca aprendeu nada. E eu nunca a amei menos por isso.
Lembro-me do dia em que cortaram seu rabo, um sofrimento para mim. Lembro de digladiar com um tio para que não o fizessem. Quando fizeram tamanha covardia, pois usaram apenas um machado e um golpe certeiro, Paloma ficou sumida por três dias! Foram três dias de preocupação. Paloma retornara magra, ferida, mas ainda assim me amando como se perdoasse quem havia feito aquilo com ela!
Paloma não podia ficar dentro de casa, minha mãe não permitia, então meu maior objetivo era fazer com que ela tivesse sua própria casa. Tentativas vans para uma criança de sete anos. Nenhuma casa parava em pé, nenhuma casa era capaz de protegê-la da chuva. Lembro-me perfeitamente quando um amigo da família, que morava em um espaço cedido pelo meu pai, construiu um lar para Paloma. Que felicidade o dia em que soube que ela não passaria mais frio e que estaria protegida da chuva.
Triste foi o dia em que tive que me despedir, Paloma havia sido envenenada - no interior era comum que cachorros que frequentassem terrenos vizinhos acabassem sendo envenenados, uma prática cruel, mas real. Alimentava Paloma na boca, com polenta e leite. Nada funcionou. Lembro perfeitamente de seu olhar de despedida, aceitando resignada o fim da sua breve vida. Um dia cheguei da escola, fui procurar por ela, eu ainda acreditava num sopro de vida que poderia reanimá-la, mas nada encontrei. Havia sido sacrificada. Chorei. Não tive a oportunidade de me despedir, não tive a oportunidade de agradecê-la, como eu achava que deveria ter feito. Mas hoje percebo que seria inútil dizer algo a ela, cachorros não fazem questões dessas convenções culturais criada pelo homem. O mais importante ela sempre soube, éramos amigos que se amavam sinceramente!
A.S.

ACASO



Algumas vezes na vida, um acontecimento banal faz você se dar conta de algo muito maior.
Explico.
Há algum tempo fui dar uma de salva-vidas, havia uma formiga minúscula que estava se afogando numa pocinha d’água e fui salva-la, mas, infelizmente, por conta do tamanho de minhas mãos ou a força empregada, ela acabou morrendo. Fiquei péssima. Mas isso serviu para uma reflexão muito maior em minha vida que independentemente da energia aplicada, do zelo em torno do que (quem) amamos, as circunstancias sempre podem sair diferente do que imaginamos.
Vivemos a ilusão de que temos total controle sobre a vida, a rotina nos dá certa sensação de conforto, como se nosso mundinho estivesse protegido. Mas toda ação, por menor que seja, promove mudanças – pequeninas ou grandiosas – que podem transformar num piscar de olhos a brisa num grande vendaval. Na teia de surpresas da vida, tudo ao nosso redor pode ser mudado. O cotidiano sofre alterações constantemente e não estamos no controle de nada! Você não pode manter a bolha de sabão flutuando para sempre, apesar de bela, ela é efêmera e dura somente o tempo de seu encantamento.

O acaso me colocou diante da formiga e sua tragédia, e na minha boa intenção desastrada, fiquei solidária da tragédia dela; foi só mais uma formiga, foi só um momento na imensidão das horas - por acaso, no acaso, no grande mistério do infinito, a vida nos apresenta a questão e a resposta do que somos nesta grande vastidão.  
Lila Mah

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

LIVROS, DO FIM AO PRINCÍPIO.


Quando eu era criança, esperava ansiosa meu pai ir à peixaria e trazer o peixe embrulhado no jornalo peixe era irrelevante, para mim, a riqueza estava no jornal e eu lia tudo que havia nele, geralmente eram os classificados, mas não importava, o mais interessante era poder ler algo novo; era sentir fazer parte do mundo. Aquelas paginas fedidas de peixe, eram meu portal, meu tapete mágico... por alguns momentos eu sentia a liberdade.
Quando fui para a escola, eu devorava os livros de português e história. Nunca pude entender que havia crianças que detestavam ler, e elas tinham mais oportunidades de ter um livro do que eu! Acredito que essa contestação foi a primeira sobre as diferenças de oportunidades.
Não sei por que essas lembranças vieram pousar sobre meus ombros hoje, talvez seja por conta dessas reflexões de final/inicio de ano...e, se for, desejo de bom neste novo ano que nasce, mais leitores, mais crianças famintas por livros, como eu fui, e que tenham muito mais oportunidades de leitura, e, que você, leve seu coração para passear entre as frases de um livro; procure uma livraria, uma biblioteca, folheie aquele livro que seu amigo tem em casa e deixe sua alma ser seduzida pela ideia de alguém, que mesmo momentaneamente, deixe o outro falar em você.
Lila Mah.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

INQUIETAÇÕES


Qual é o sentido de tanta correria, de tanta pressa, de tanta necessidade? Por qual motivo vivemos tão ansiosos?! Por que essa necessidade de ter que estar sempre ocupado com algo, de ter um objetivo?
Quem colocou em nossas mentes que devemos trabalhar tanto e acumular bens? Se nunca estamos satisfeitos com o que possuímos e então temos que trabalhar mais e mais...
Observei alguns animais em confinamento e não vi diferença nenhuma entre eles e a sociedade na qual vivemos. Somos todos confinados, reféns de algo que colocaram em nossas mentes. Ideologias loucas. Estamos todos presos a laços invisíveis que nos controlam. Somos alimentados exageradamente por ideias que entopem e entorpecem nossas mentes.
reparou nas pessoas que estão ao seu redor, percebeu que cada vez mais um brilho diferente no olhar delas, ou melhor, a falta, de um brilho no olhar delas? A alegria, a espontaneidade, a leveza estão sendo substituídas por neuroses. Não basta ser bom, tem que ser espetacular. É como querer chegar até o horizonte.
E pergunto, para que tudo isso? Por qual razão somos deixados nesse estado de suspensão?
Quem lucra com esse stress generalizado no qual estamos? Quem realmente controla esse rebanho?
Lila Mah.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O MONSTRO QUE MORA AQUI

Quando eramos crianças e morríamos de medo de lugares escuros; quem nunca achou que havia um monstro escondido debaixo da cama, dentro do armário ou atrás da porta?
Quem poderia explicar um medo assim, de algo que não se vê, de que não se tem a menor ideia de como seja?
Crescemos, e, num belo dia, nos deparamos com “aquele” monstro. Sim. Aquele monstro sem face, sem forma. Mas com a presença. A promessa. O Medo. E onde jamais poderíamos crer que o encontraríamos, ele aparece, dentro de nós mesmo.
Sim, dentro de mim. De você. Naquele simpático senhor que nos dá bom dia; naquela senhora carinhosa com seus netinhos, naquele distinto senhor de terno e gravata, no jovem que anda despreocupadamente, no carinha do bar, na menina da escola. Sim. Carregamos potencialmente um monstro oculto e ele sai da escuridão cada vez que uma voz se eleva, cada vez que permitimos a raiva dominar nossos atos.
A nós cabe não apenas manter a porta bem trancada, mas também não alimentá-lo, pois, se lhe damos o que comer, ele cria forças e despedaça as correntes que entrelaçavam a porta, fugindo, sem rumo, sem direção; e o que esperar de um monstro que ultrapassa as cercas de seu calabouço?

Lila Mah.