terça-feira, 18 de novembro de 2014

SAUDADE


um tempo que não corre nas engrenagens dos relógios, ele reflete sua face na poeira suspensa das salas esquecidas, viaja no tricotar ensandecido das aranhas, nos olha por entre janelas ocas das casas abandonadas. Balança entre as folhas das árvores nas ventanias de verão. Dança no lusco-fusco. Ele nos chama nas lembranças adormecidas, na pontada da saudade nascida nos dias frios do coração. O tempo além do tempo. O senhor da terra da lembrança. Quando toca seu cajado no chão, não porta que o detenha.
Quando menina eu o via nos olhos dos adultos. Ele cantava sua canção através das palavras dele. Crescia a cada suspiro saudoso, a cada história de seus passados. Eu era imune a suas investidas, mas ele pacientemente esperava a vida tecer minha história também. Não havia como escapar de seu abraço. A cada ano, sua sombra projetava-se mais ao meu lado.
O tempo paralelo. O condutor da carruagem. Não sei ao certo suas cores - num dia pode ser de um amarelo desbotado, pular para um cinza apagado ou inundar-se de cores fortes. Pinceladas de vermelho ocre – vai depender da pagina que ele vai abrir, qual envelope de história vai rasgar e recitar em meu coração, qual será a medida da saudade que despejará em mim.
um tempo que não corre nas engrenagens dos relógios, e ele ressurge a cada novo fôlego que nasce na terra e a cada brilho que se apaga no olhar de quem amamos.

Lila Mah

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