quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

PALOMA



Às vezes lembranças de nossa infância surgem em nossa mente tão sem explicação como um raio que cai do céu. Por vezes, um pequeno gesto desencadeia uma rede de lembranças que nos levam direto a um túnel do tempo que desemboca há pelo menos vinte anos atrás.
Hoje, enquanto lia um livro, lembrei-me de minha cachorra Paloma - não me lembro de quem escolheu o nome, mas pelo mau gosto acredito que não tenha sido eu! Foi o primeiro animal de estimação de que me recordo, embora minha mãe diga que minha família já havia tido outros dois. Vivíamos no interior, então Paloma era criada no terreiro, livre. Paloma foi especial por que a amei de verdade.
Lembro que tinha por volta de sete anos, e que uma de minhas brincadeiras favoritas era estar junto de Paloma, tentar fazer com que ela buscasse um pedaço de madeira que eu arremessasse, ou mesmo convencê-la a se fingir de morta ou dar a patinha. Todas as tentativas foram em vão, Paloma nunca aprendeu nada. E eu nunca a amei menos por isso.
Lembro-me do dia em que cortaram seu rabo, um sofrimento para mim. Lembro de digladiar com um tio para que não o fizessem. Quando fizeram tamanha covardia, pois usaram apenas um machado e um golpe certeiro, Paloma ficou sumida por três dias! Foram três dias de preocupação. Paloma retornara magra, ferida, mas ainda assim me amando como se perdoasse quem havia feito aquilo com ela!
Paloma não podia ficar dentro de casa, minha mãe não permitia, então meu maior objetivo era fazer com que ela tivesse sua própria casa. Tentativas vans para uma criança de sete anos. Nenhuma casa parava em pé, nenhuma casa era capaz de protegê-la da chuva. Lembro-me perfeitamente quando um amigo da família, que morava em um espaço cedido pelo meu pai, construiu um lar para Paloma. Que felicidade o dia em que soube que ela não passaria mais frio e que estaria protegida da chuva.
Triste foi o dia em que tive que me despedir, Paloma havia sido envenenada - no interior era comum que cachorros que frequentassem terrenos vizinhos acabassem sendo envenenados, uma prática cruel, mas real. Alimentava Paloma na boca, com polenta e leite. Nada funcionou. Lembro perfeitamente de seu olhar de despedida, aceitando resignada o fim da sua breve vida. Um dia cheguei da escola, fui procurar por ela, eu ainda acreditava num sopro de vida que poderia reanimá-la, mas nada encontrei. Havia sido sacrificada. Chorei. Não tive a oportunidade de me despedir, não tive a oportunidade de agradecê-la, como eu achava que deveria ter feito. Mas hoje percebo que seria inútil dizer algo a ela, cachorros não fazem questões dessas convenções culturais criada pelo homem. O mais importante ela sempre soube, éramos amigos que se amavam sinceramente!
A.S.

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